A BANDINHA DO CRICIÚMA
Sexta-feira à noite eu assistia futebol, Série B, na televisão.
Criciúma e Paraná é uma boa forma de desligar o cérebro, prenunciando um final de semana menos estressante, menos cheio de datas, prazos e compromissos.
No estádio uma bandinha, sopros e percussão, agitavam a torcida em noite de frio catarinense. "Dá-lhe Tigre e Dá-lhe Tigre", cantavam os intrépidos 3.930 torcedores, que possibilitaram renda de R$ 40.220,00.
Cantaram pouco quando o Paraná fez 1 a 0, bem no começo do jogo. Joga bem esse time treinado pelo Martelotte, ex-técnico da base do Santos. Toques rápidos, insinuantes, uma molecada correndo sem parar para marcar e para se lançar ao ataque.
A bandinha arrefeceu, sofreu o baque, mas foi por pouco tempo. Para incentivar mais, começaram a cantar mais alto. Pensava, eu: "são 90 minutos, se fossem músicas de 3 minutos cada, seriam 30 vezes cantando a música para passar o tempo, enquanto o time perde". Exige garganta e força de vontade. Mas a cantoria em estádios sempre é empolgante. Incendeia os times e oferece um senso de comunidade, de integração, da parte do todo, o canto que ecoa. Reclamo um pouco que falta criatividade, pois quase sempre é cópia de algo. Só os corintianos inventaram o "Louco por Ti" que pegou e encantou. A bandinha do Criciúma, por exemplo, embalava a cópia de um hino de estádios argentinos. Dá-lhe o quê? Dá-lhe em quem?
Perguntas relevantes quando aos 9 do segundo tempo o Paraná ampliou para 2 a 0.
A bandinha fraquejou; 2 a 0 é placar clássico, para desanimar qualquer um. Passado o baque, a bandinha continuou a tocar, as cornetas e trombones animando o frio da galera, os sujeitos dos bumbos marcando compasso da cantoria. O time em campo, bem... o time em campo perdia de 2 a 0 e já era quase 30 do segundo. Os caras da bandinha, estes valentes, não desanimavam. Tocavam mais e mais. Estava tão frio que quando dava close nos jogadores, via-se o vapor subindo do corpo quente, suado. Imagina na arquibancada.
De repente, gol do Criciúma, aos 32 do segundo tempo. A galera agora animou. A bandinha tocou mais forte. Vai que dá. Dá-lhe Tigre. Dá-lhe alguma coisa em alguém. Mas dá-lhe.
O esforço, a crença, a persistência foram recompensados quando, aos 45 do segundo tempo, numa falha do Paraná, o Criciúma empatou.
Já estava pensando comigo: "O pessoal da bandinha vai dormir feliz neste frio. O Criciúma empa... peraí, gol?". Terceiro gol do Criciúma, 47 do segundo tempo e o Criciúma virou. A televisão mostrava a loucura nas arquibancadas. A bandinha tocava ainda mais forte, mais rápido como a batida do coração.
E finalmente acabou o jogo. Gustagol, artilheiro da noite, 2 gols, foi lá na torcida, braços levantados, agradecendo.
A lição para nossa vida: ouça a bandinha que toca sem parar, torcendo por você. E mostre empenho para que eles continuem acreditando. Vai que dá. Dá-lhe.
segunda-feira, 25 de julho de 2016
segunda-feira, 11 de julho de 2016
ANONIMATO
Uma das coisas que estudo e ensino é Ética. Não como guia prático para lidar com os conflitos e desvios da vida, porque, como sempre repito, ninguém é régua para ninguém. Mas como corpo do conhecimento necessário para a prática, para avaliar os conflitos nas áreas de comunicação e marketing, sabendo de algumas implicações legais relacionadas ao mundo das trocas, da promoção e da pesquisa.
Quem já teve aula comigo sabe que sempre repito que vivemos em um país no qual é livre a expressão do pensamento, de acordo com o Artigo 5o. do Título II da Constituição. Só que o mesmo instrumento legal diz que é vedado o anonimato.
Ou seja, em nosso país é garantido que você tenha o sagrado direito de dizer o que pensa, sem censura. Porém é importante deixar claro que você também é responsável por aquilo que diz. Bom saber que você pode ser responsabilizado civil e criminalmente pelos danos à honra e imagem dos outros, se aquilo que diz é mentira.
Avaliações do desempenho alheio não pode ser considerado crime contra a honra, porque depende da subjetividade da percepção de quem avalia. Ninguém pode ser processado porque achou que o jogador foi um verdadeiro perna-de-pau em uma partida. Ou porque não gostou da comida servida em um restaurante. O que você não pode fazer é ofender a honra pessoal do jogador ou do cozinheiro. Ou do professor.
Penso nisso lendo uma avaliação destrutiva, ferina e desonesta, feita por aluno de forma anônima.
Confesso que fui procurar pela sua letra quem é a figura. Melhor saber o nome e o sobrenome de alguém que não desejo encontrar na vida. A covardia aliada à maldade é tudo que não espero encontrar perto de mim. Ok, descoberto quem escreveu o que li, fiquei pensando muito, dei a chance da dúvida, pois ele poderia ter razão. E se ele tivesse, melhor seria desistir da carreira e da profissão. Vi todas as demais avaliações que, em maior ou menor grau, contrariam o que expressou o rapaz. Pensei nos quase 12 anos desta disciplina que não é fácil, em todos os alunos que encontrei. Enfim, é um contra todos os demais. Não que eu seja uma unanimidade, nem quero ser. Podem ter me criticado antes, mas não no nível deste moço, ao dizer que não preparo minhas aulas, que não domino o assunto. Isso é coisa de gente ruim. Mas... fica uma tristeza pela capacidade humana de destruir o que os outros tentam construir.
Afeta a alma? Afeta, claro.
Mas também demonstra, mais uma vez, que você só ensina quem quer aprender.
Uma das coisas que estudo e ensino é Ética. Não como guia prático para lidar com os conflitos e desvios da vida, porque, como sempre repito, ninguém é régua para ninguém. Mas como corpo do conhecimento necessário para a prática, para avaliar os conflitos nas áreas de comunicação e marketing, sabendo de algumas implicações legais relacionadas ao mundo das trocas, da promoção e da pesquisa.
Quem já teve aula comigo sabe que sempre repito que vivemos em um país no qual é livre a expressão do pensamento, de acordo com o Artigo 5o. do Título II da Constituição. Só que o mesmo instrumento legal diz que é vedado o anonimato.
Ou seja, em nosso país é garantido que você tenha o sagrado direito de dizer o que pensa, sem censura. Porém é importante deixar claro que você também é responsável por aquilo que diz. Bom saber que você pode ser responsabilizado civil e criminalmente pelos danos à honra e imagem dos outros, se aquilo que diz é mentira.
Avaliações do desempenho alheio não pode ser considerado crime contra a honra, porque depende da subjetividade da percepção de quem avalia. Ninguém pode ser processado porque achou que o jogador foi um verdadeiro perna-de-pau em uma partida. Ou porque não gostou da comida servida em um restaurante. O que você não pode fazer é ofender a honra pessoal do jogador ou do cozinheiro. Ou do professor.
Penso nisso lendo uma avaliação destrutiva, ferina e desonesta, feita por aluno de forma anônima.
Confesso que fui procurar pela sua letra quem é a figura. Melhor saber o nome e o sobrenome de alguém que não desejo encontrar na vida. A covardia aliada à maldade é tudo que não espero encontrar perto de mim. Ok, descoberto quem escreveu o que li, fiquei pensando muito, dei a chance da dúvida, pois ele poderia ter razão. E se ele tivesse, melhor seria desistir da carreira e da profissão. Vi todas as demais avaliações que, em maior ou menor grau, contrariam o que expressou o rapaz. Pensei nos quase 12 anos desta disciplina que não é fácil, em todos os alunos que encontrei. Enfim, é um contra todos os demais. Não que eu seja uma unanimidade, nem quero ser. Podem ter me criticado antes, mas não no nível deste moço, ao dizer que não preparo minhas aulas, que não domino o assunto. Isso é coisa de gente ruim. Mas... fica uma tristeza pela capacidade humana de destruir o que os outros tentam construir.
Afeta a alma? Afeta, claro.
Mas também demonstra, mais uma vez, que você só ensina quem quer aprender.
sexta-feira, 8 de julho de 2016
CADÊ O TROCO?
Meu pai era um cara legal. Simples. Muitas vezes raso. Mas um cara legal, que dirigia um caminhão.
Sua preferida era minha irmã. Nunca vi meu velho chorar tanto quanto no dia em que conduziu minha irmã, igreja adentro, no seu casamento.
Lembranças específicas: ele me dando tapas na coxa, enquanto guiava. Sua paixão por Nossa Senhora Aparecida. O rádio sempre ligado no futebol, enquanto ele dormia no domingo à tarde Ele me chamando de "cabeludo" e "secretário" no meio dos amigos, quando tomava umas pingas no bar. Ele me oferecendo a caipirinha para eu colocar o dedinho e experimentar, com 7 ou 8 anos de idade. Meu velho era um cara legal, na sua simplicidade.
Lembro de suas mãos com as veias saltadas, seu prazer em fumar compulsivamente,
Definitivamente não sou meu pai. Sou mais parecido fisicamente com minha mãe. E talvez, a contragosto, eu seja muito parecido com ela.
Corte da cena: meu filho mais velho é minha cara. Ou seja, fisicamente parecido com minha mãe, por consequência. Hoje cheguei em casa e pedi para que ele fosse na padaria comprar pão e outros frios para o lanche da noite. Sua pergunta: "posso comprar um docinho?". Estendi a nota e disse: "pode".
Que coisa, o tempo. Meu pai, minha mãe, eu, meu filho indo comprar docinhos. E então ele volta e eu pergunto: "cadê o troco?". Minha mãe pergunta dentro de mim. Meu pai faz coro. Todos os três perguntamos cadê o troco? Ele me estende as notas de dinheiro e o cupom fiscal.
Tão simples. Tão complexo, as gerações todas falando naquele gesto. Meu pai com sua caipirinha, minha mãe com o litro para que eu fosse buscar óleo na mercearia. O tempo, esse brincalhão.
Ou, como li num post do instagram de um ex-aluno: "a vida é uma doença mortal que transmitimos por meio do sexo".
Meu pai era um cara legal. Simples. Muitas vezes raso. Mas um cara legal, que dirigia um caminhão.
Sua preferida era minha irmã. Nunca vi meu velho chorar tanto quanto no dia em que conduziu minha irmã, igreja adentro, no seu casamento.
Lembranças específicas: ele me dando tapas na coxa, enquanto guiava. Sua paixão por Nossa Senhora Aparecida. O rádio sempre ligado no futebol, enquanto ele dormia no domingo à tarde Ele me chamando de "cabeludo" e "secretário" no meio dos amigos, quando tomava umas pingas no bar. Ele me oferecendo a caipirinha para eu colocar o dedinho e experimentar, com 7 ou 8 anos de idade. Meu velho era um cara legal, na sua simplicidade.
Lembro de suas mãos com as veias saltadas, seu prazer em fumar compulsivamente,
Definitivamente não sou meu pai. Sou mais parecido fisicamente com minha mãe. E talvez, a contragosto, eu seja muito parecido com ela.
Corte da cena: meu filho mais velho é minha cara. Ou seja, fisicamente parecido com minha mãe, por consequência. Hoje cheguei em casa e pedi para que ele fosse na padaria comprar pão e outros frios para o lanche da noite. Sua pergunta: "posso comprar um docinho?". Estendi a nota e disse: "pode".
Que coisa, o tempo. Meu pai, minha mãe, eu, meu filho indo comprar docinhos. E então ele volta e eu pergunto: "cadê o troco?". Minha mãe pergunta dentro de mim. Meu pai faz coro. Todos os três perguntamos cadê o troco? Ele me estende as notas de dinheiro e o cupom fiscal.
Tão simples. Tão complexo, as gerações todas falando naquele gesto. Meu pai com sua caipirinha, minha mãe com o litro para que eu fosse buscar óleo na mercearia. O tempo, esse brincalhão.
Ou, como li num post do instagram de um ex-aluno: "a vida é uma doença mortal que transmitimos por meio do sexo".
quarta-feira, 6 de julho de 2016
CPTM
O trem que me leva até a universidade é, ele próprio, uma universidade. Sentar, ouvir, aprender. Contemplar o mundo que passa pela janela e prestar mais atenção nas pessoas ao redor.
Por exemplo: ali ao fundo há uma mulher com um casaco azul que não fecha. Mesmo que ela quisesse não fecharia, dado o tamanho de seus seios. Ela usa um colar enorme, dourado, com um pingente também grande, na forma de uma maçã. A seu lado o rapaz bem acima do peso, que usa uma polo Lacoste, ressona, enquanto segura com força sua bolsa de couro. Mais longe uma mulher tricota um cachecol preto e branco. Estou só no banco. E então sentam-se minhas personagens. Elas não têm nome. Uma de frente, outra ao meu lado. As duas mulheres são negras. Uma delas leva uma grande bolsa e abre pacotes com bijouterias folheadas a ouro. "Não desbotam, que nem aquelas porcarias chinesas". A que está ao meu lado chegou apoiando-se numa bengala. É bem magra. Usa uma blusa de tricô laranja e uma saia florida, cujo fundo predominante é cor-de-rosa. Tem o cabelo tingido em uma cor que vai do amarelo ao marrom. Ouço sua história e suas perguntas: "quanto custam (as bijouterias)", "quanto você gastou?". E então responde as perguntas de sua companheira de viagem e eu vou descobrindo seu drama. Teve dois AVCs. Tem 3 filhos, dois meninos e uma menina. "Meu bebê faz aniversário esta semana, 33 anos". Que perdeu o marido. Que ficou em uma cadeira de rodas. Que quando ficou no hospital depenaram sua casa. "Não sobrou nada, levaram até o fogão, imagina". Que a filha veio cuidar dela, mas que depois de alguns meses mandou ela embora: "imagina, tem filho, tem marido pra cuidar". Que já enfrentou o pior da vida, mas que agora agradece todo dia. Cada dia é uma benção. E que Deus está restituindo suas coisas, aos pouqinhos. Que queria tanto ter dinheiro para comprar umas joias assim, douradas, bonitas, como as que a colega usa. Que mora no Camargo Velho, que tem uma carroça. Mas que já entrou com os papéis. Que tem 53 anos. Minha idade, ela tem.
Depois fica em silêncio. Abre a grande bolsa que colocou no chão. Tira um livro. Leio na capa, "A Igreja na Era do Gelo". Ela então começa a ler e a entoar uma música, bem baixinho, quase que murmurando, entre o balanço rítmico do trem.
Eu aprendo. Toda vez aprendo.
O trem que me leva até a universidade é, ele próprio, uma universidade. Sentar, ouvir, aprender. Contemplar o mundo que passa pela janela e prestar mais atenção nas pessoas ao redor.
Por exemplo: ali ao fundo há uma mulher com um casaco azul que não fecha. Mesmo que ela quisesse não fecharia, dado o tamanho de seus seios. Ela usa um colar enorme, dourado, com um pingente também grande, na forma de uma maçã. A seu lado o rapaz bem acima do peso, que usa uma polo Lacoste, ressona, enquanto segura com força sua bolsa de couro. Mais longe uma mulher tricota um cachecol preto e branco. Estou só no banco. E então sentam-se minhas personagens. Elas não têm nome. Uma de frente, outra ao meu lado. As duas mulheres são negras. Uma delas leva uma grande bolsa e abre pacotes com bijouterias folheadas a ouro. "Não desbotam, que nem aquelas porcarias chinesas". A que está ao meu lado chegou apoiando-se numa bengala. É bem magra. Usa uma blusa de tricô laranja e uma saia florida, cujo fundo predominante é cor-de-rosa. Tem o cabelo tingido em uma cor que vai do amarelo ao marrom. Ouço sua história e suas perguntas: "quanto custam (as bijouterias)", "quanto você gastou?". E então responde as perguntas de sua companheira de viagem e eu vou descobrindo seu drama. Teve dois AVCs. Tem 3 filhos, dois meninos e uma menina. "Meu bebê faz aniversário esta semana, 33 anos". Que perdeu o marido. Que ficou em uma cadeira de rodas. Que quando ficou no hospital depenaram sua casa. "Não sobrou nada, levaram até o fogão, imagina". Que a filha veio cuidar dela, mas que depois de alguns meses mandou ela embora: "imagina, tem filho, tem marido pra cuidar". Que já enfrentou o pior da vida, mas que agora agradece todo dia. Cada dia é uma benção. E que Deus está restituindo suas coisas, aos pouqinhos. Que queria tanto ter dinheiro para comprar umas joias assim, douradas, bonitas, como as que a colega usa. Que mora no Camargo Velho, que tem uma carroça. Mas que já entrou com os papéis. Que tem 53 anos. Minha idade, ela tem.
Depois fica em silêncio. Abre a grande bolsa que colocou no chão. Tira um livro. Leio na capa, "A Igreja na Era do Gelo". Ela então começa a ler e a entoar uma música, bem baixinho, quase que murmurando, entre o balanço rítmico do trem.
Eu aprendo. Toda vez aprendo.
domingo, 3 de julho de 2016
COMPRAR PÃO
Acordo e vou para a rua: caminhar para perder peso, comprar pão para ganhar tudo de volta. Combino a missão: caminhar, dar uma volta grande pelas ruas do bairro, e depois passar na padaria. Subo a Angélica e há um vazamento intenso de água limpa naqueles registros externos de uma loja. Paro. Tento avaliar se posso resolver. Alguém forçou as emendas dos encanamentos e a água vaza. Claro que não tenho competência hidráulica para resolver isso. A loja é uma daquelas que abre aos domingos. Alguém virá para resolver esse problema que não é meu.
Continuo subindo. Uma mulher que caminha com seu cachorro viu minha ação e comenta: "você conseguiu? Eu também tentei". Respondo que não consegui. Que deve chegar alguém. Que dá imensa dó. Ela, a mulher do cachorro responde: "isso mesmo; dá muita dó perder a água limpa. Deve ter sido algum mendigo para beber água ou lavar a roupa. Mas dá dó".
Subo com culpa por não conseguir resolver o problema da água que escorre pela calçada.
Contorno a praça Buenos Aires duas vezes e há dois mendigos completamente alheios ao mundo de gente que corre, que passeia, que pensa em água escorrendo. Teriam sido eles? A pergunta é secreta, somente dentro da minha mente. Eles são engraçados: amarraram um cachorro nas grades do parque e bebem algo suspeito em uma garrafa de coca-cola. Uma moça passa por mim com medalha no peito. Uma corredora com medalha, participou de algumas destas corridas que são comuns aqui por perto, no meu bairro. Acho engraçado ela caminhando com aquela medalha dourada imensa no peito. Uma grande vitória, que não terei ao final da minha caminhada em torno da praça. Na segunda volta os mendigos estão sentados. O cachorro se coça. A garrafa de coca-cola está jogada no meio-fio.
Continuo meu caminho de pensamentos deixados para trás e sigo pelas ruas deste pedaço de São Paulo. Passo pelo prédio do Vilanova Artigas que certa vez precisei analisar em trabalho de semiótica. Sempre passo por esse prédio e não vejo graça nenhuma nele. "Tenha paciência: com tanto prédio mais interessante para analisar!". Desço pelo Samaritano. Um casal se aperta na frente da porta de vidro para tentar enxergar algo dentro de um edifício comercial. Nomes de médicos. O casal tenta descobrir o nome de algum médico que trabalha ali.
Chego à padaria para comprar os pães. Para mim os pães falam quase tudo o que sinto por São Paulo. Um pacto. Uma confraria de costumes e esquisitices. Paulistanos e seus pães com manteiga, suas xícaras de médias (meio café, meio leite) em um domingo de manhã. Paulistanos que caminham que caminham, que levam os cachorros para passear, que se condoem da água limpa escorrendo pela calçada. Na fila do caixa uma cliente reconhece o sotaque da atendente: "é pernambucana? eu também". E então começam a falar sobre como deveria estar gostoso na Boa Viagem agora. Com sol e calor. Seguro meu pacote com pães quentes e penso em como é relativo esse negócio de "gostoso".
Finalmente consigo sair de novo para a rua e encontro dois vizinhos que levaram o cachorro para passear. Eles sorriem e me apoiam na caminhada. "Faz bem pra saúde". Eu sorrio de volta e não falo da água, dos mendigos, da mulher com a medalha no peito, do prédio do Vilanova Artigas, do casal na porta de vidro, da pernambucana na fila. Isso não importa. Quase nada importa. Eu registrei no meu cérebro e agora escrevo aqui.
Muito mais importante é o pão que levo para o café da manhã. Para passar margarina em pedaços generosos. Para acompanhar minhas xícaras de café no domingo da cidade em que as pessoas se amparam nas caminhadas. Muito mais importante é esse pão que levo.
Acordo e vou para a rua: caminhar para perder peso, comprar pão para ganhar tudo de volta. Combino a missão: caminhar, dar uma volta grande pelas ruas do bairro, e depois passar na padaria. Subo a Angélica e há um vazamento intenso de água limpa naqueles registros externos de uma loja. Paro. Tento avaliar se posso resolver. Alguém forçou as emendas dos encanamentos e a água vaza. Claro que não tenho competência hidráulica para resolver isso. A loja é uma daquelas que abre aos domingos. Alguém virá para resolver esse problema que não é meu.
Continuo subindo. Uma mulher que caminha com seu cachorro viu minha ação e comenta: "você conseguiu? Eu também tentei". Respondo que não consegui. Que deve chegar alguém. Que dá imensa dó. Ela, a mulher do cachorro responde: "isso mesmo; dá muita dó perder a água limpa. Deve ter sido algum mendigo para beber água ou lavar a roupa. Mas dá dó".
Subo com culpa por não conseguir resolver o problema da água que escorre pela calçada.
Contorno a praça Buenos Aires duas vezes e há dois mendigos completamente alheios ao mundo de gente que corre, que passeia, que pensa em água escorrendo. Teriam sido eles? A pergunta é secreta, somente dentro da minha mente. Eles são engraçados: amarraram um cachorro nas grades do parque e bebem algo suspeito em uma garrafa de coca-cola. Uma moça passa por mim com medalha no peito. Uma corredora com medalha, participou de algumas destas corridas que são comuns aqui por perto, no meu bairro. Acho engraçado ela caminhando com aquela medalha dourada imensa no peito. Uma grande vitória, que não terei ao final da minha caminhada em torno da praça. Na segunda volta os mendigos estão sentados. O cachorro se coça. A garrafa de coca-cola está jogada no meio-fio.
Continuo meu caminho de pensamentos deixados para trás e sigo pelas ruas deste pedaço de São Paulo. Passo pelo prédio do Vilanova Artigas que certa vez precisei analisar em trabalho de semiótica. Sempre passo por esse prédio e não vejo graça nenhuma nele. "Tenha paciência: com tanto prédio mais interessante para analisar!". Desço pelo Samaritano. Um casal se aperta na frente da porta de vidro para tentar enxergar algo dentro de um edifício comercial. Nomes de médicos. O casal tenta descobrir o nome de algum médico que trabalha ali.
Chego à padaria para comprar os pães. Para mim os pães falam quase tudo o que sinto por São Paulo. Um pacto. Uma confraria de costumes e esquisitices. Paulistanos e seus pães com manteiga, suas xícaras de médias (meio café, meio leite) em um domingo de manhã. Paulistanos que caminham que caminham, que levam os cachorros para passear, que se condoem da água limpa escorrendo pela calçada. Na fila do caixa uma cliente reconhece o sotaque da atendente: "é pernambucana? eu também". E então começam a falar sobre como deveria estar gostoso na Boa Viagem agora. Com sol e calor. Seguro meu pacote com pães quentes e penso em como é relativo esse negócio de "gostoso".
Finalmente consigo sair de novo para a rua e encontro dois vizinhos que levaram o cachorro para passear. Eles sorriem e me apoiam na caminhada. "Faz bem pra saúde". Eu sorrio de volta e não falo da água, dos mendigos, da mulher com a medalha no peito, do prédio do Vilanova Artigas, do casal na porta de vidro, da pernambucana na fila. Isso não importa. Quase nada importa. Eu registrei no meu cérebro e agora escrevo aqui.
Muito mais importante é o pão que levo para o café da manhã. Para passar margarina em pedaços generosos. Para acompanhar minhas xícaras de café no domingo da cidade em que as pessoas se amparam nas caminhadas. Muito mais importante é esse pão que levo.
Re-fazenda
Cancelei minha conta no facebook.
As pessoas me perguntam: por quê? Algum problema? Está doente? Brigou com a mulher? Alguém está te perseguindo?
Nada, nadica. Parei como quem resolve parar para fazer um ajuste de contas com seus escritos. Há alguns motivos menos nobres, claro. Mas também há uma vontade grande de respirar, no sentido de aspirar o ar com paciência, antes de expirá-lo.
Uma série de providências na vida: cancelar o facebook; brincar menos com o álcool, deixar de naturalizá-lo na vida, como se fosse simples assim; fazer um tanto quanto de exercícios, afinal a idade está chegando violentamente; cuidar melhor da carreira acadêmica, levar mais a sério artigos, pesquisas, orientações; deixar de se aborrecer tanto com pautas coletivas e cuidar mais das pautas individuais e familiares. Publicar um livro. Fomentar grupo de pesquisa. Ir adiante.
Todo mundo tem uma fase destas, de insatisfação com sua própria inércia, de estranhamento com as coisas que vão, vão, sem tempo, sem prazer, sem paciência, sem a menor consciência de que elas estão indo. E então você olha no espelho e percebe que seu filho já está precisando aprender a fazer a barba, sua conta bancária pede socorro, sua barriga cresceu muito além da medida do razoável, você nem sabe direito mais quem é você, quem é aquele cara ali no espelho, que antes de ser assim tinha tantos sonhos...
***
Então voltei aqui. 5 anos desde a última publicação, voltei aqui.
Escrever é um modo de eu lidar comigo mesmo. Uma forma de me contemplar por meio de minhas ideias postas em ordem. A sessão de terapia custa mais caro, depende de seres humanos, nem sempre a gente pode reler e editar. Melhor escrever um blog.
Bem, antes que isso vire um mimimi existencialista, melhor deixar claro que não pretendo fazê-lo assim. Esse aqui é um blog de escritos pessoais. Ponto. Tenho uma amiga que faz desenhos lindíssimos e posta nas suas timelines todas. Eu virei aqui com esse espírito: escrever enquanto penso nas coisas da vida. E, não, esse não será um blog sobre marketing, comunicação e outras coisas assim. O site profissional será em outro lugar. Aqui é só um cantinho para escrever quando eu sentir a compulsão do facebook, aquela saudade imensa dos amigos, das vaidades, das ideias, da troca de sentimentos nesta vida tão esquisita, tão assoberbada, tão conectada. Aí virei aqui para escrever. Quem quiser comentar, brigar comigo, concordar, me mandar um e-mail, enfim, quem compartilhar o sentimento de viver e pensar a vida, bem, isso será sempre uma alegria.
Cancelei minha conta no facebook.
As pessoas me perguntam: por quê? Algum problema? Está doente? Brigou com a mulher? Alguém está te perseguindo?
Nada, nadica. Parei como quem resolve parar para fazer um ajuste de contas com seus escritos. Há alguns motivos menos nobres, claro. Mas também há uma vontade grande de respirar, no sentido de aspirar o ar com paciência, antes de expirá-lo.
Uma série de providências na vida: cancelar o facebook; brincar menos com o álcool, deixar de naturalizá-lo na vida, como se fosse simples assim; fazer um tanto quanto de exercícios, afinal a idade está chegando violentamente; cuidar melhor da carreira acadêmica, levar mais a sério artigos, pesquisas, orientações; deixar de se aborrecer tanto com pautas coletivas e cuidar mais das pautas individuais e familiares. Publicar um livro. Fomentar grupo de pesquisa. Ir adiante.
Todo mundo tem uma fase destas, de insatisfação com sua própria inércia, de estranhamento com as coisas que vão, vão, sem tempo, sem prazer, sem paciência, sem a menor consciência de que elas estão indo. E então você olha no espelho e percebe que seu filho já está precisando aprender a fazer a barba, sua conta bancária pede socorro, sua barriga cresceu muito além da medida do razoável, você nem sabe direito mais quem é você, quem é aquele cara ali no espelho, que antes de ser assim tinha tantos sonhos...
***
Então voltei aqui. 5 anos desde a última publicação, voltei aqui.
Escrever é um modo de eu lidar comigo mesmo. Uma forma de me contemplar por meio de minhas ideias postas em ordem. A sessão de terapia custa mais caro, depende de seres humanos, nem sempre a gente pode reler e editar. Melhor escrever um blog.
Bem, antes que isso vire um mimimi existencialista, melhor deixar claro que não pretendo fazê-lo assim. Esse aqui é um blog de escritos pessoais. Ponto. Tenho uma amiga que faz desenhos lindíssimos e posta nas suas timelines todas. Eu virei aqui com esse espírito: escrever enquanto penso nas coisas da vida. E, não, esse não será um blog sobre marketing, comunicação e outras coisas assim. O site profissional será em outro lugar. Aqui é só um cantinho para escrever quando eu sentir a compulsão do facebook, aquela saudade imensa dos amigos, das vaidades, das ideias, da troca de sentimentos nesta vida tão esquisita, tão assoberbada, tão conectada. Aí virei aqui para escrever. Quem quiser comentar, brigar comigo, concordar, me mandar um e-mail, enfim, quem compartilhar o sentimento de viver e pensar a vida, bem, isso será sempre uma alegria.
sábado, 4 de junho de 2011
Querida Presidenta Dilma
Como vai? Queria dar uns palpites na sua política, falar do Palocci, mas antes de mais nada acho importante esclarecer alguns pontos.
Porque quero deixar claro que não votei na senhora, porque não gosto muito das práticas do grupo político que a cerca, apesar de ter de reconhecer que a opção que nos foi apresentada não era bem uma opção. Ô partidinho ruim, esse tal de PSDB, com seus caciques que não têm a menor idéia do que seja eleitor, que não têm claramente uma proposta política a não ser: Aécio, Serra ou Alckmin? Quem faz política a partir de nome de candidato, fica refém de vaidades pessoais e não arregimenta seguidores de idéias e valores.
Quanto ao PT, sabe como é, aquelas histórias lá do mensalão, do dinheiro na cueca, dos aloprados, dos filhos do ex-presidente e suas ligações com a Brasil Telecom, das consultorias do Zé Dirceu pro Carlos Slim, sempre me incomodaram. Não porque o PT seja diferente do resto que está aí, mas especialmente porque é igual. Fico um pouco triste pelos muitos amigos que tenho e que acreditam no Partido porque eu também, lá pelos idos de 81, quando era um universitário recém chegado em São Paulo, fiquei deslumbrado com o ideário de um partido honesto, comprei e usei brochinhos com as estrelinhas e vibrei muito com a eleição dos primeiros deputados, dos primeiros prefeitos. Mas depois, pouco a pouco, fui me afastando porque comecei a perceber que alguns poucos estavam ganhando muito com a boa vontade alheia. E que em algumas questões, ideologicamente, eu não me alinhava com as propostas da galera.
Bem, isso é coisa democrática, não é mesmo? Porque apoiar ou combater propostas é típico de um mundo no qual não devem existir visões únicas ou pratos prontos; em que a gente pode debater idéias, ganhar eleições, perder eleições, e com essa alternância de poder a gente vai evoluindo como país. Agora a senhora é presidente (ou presidenta, como prefere). Logo, a senhora comanda o Estado e deveria ter uma visão que está acima de todos e que deve governar para todos, não importa se tenha mais ou menos cabelo, se freqüente esta ou aquela religião, se goste ou não goste da senhora.
Como disse, não votei na senhora, mas reconheço que seus primeiros meses de governo me surpreenderam positivamente. Taí: um monte de coisas que foram propostas e encaminhadas seriam exatamente como eu faria. Veja só um exemplo: o aeroporto de Cumbica. Temos lá um engarrafamento de aviões, um caos que só tende a piorar na medida em que mais concidadãos conseguem comprar passagens e viajar. Como resolver isso? Com baixa capacidade para investimentos por parte do Estado, um sistema viciado de concorrências, empreiteiras e políticos? Isso não funciona, a gente já sabe. Melhor fazer como a senhora propôs no mês passado: vamos fazer uma parceria público-privada e mandar bala. Porque coisas assim não podem esperar. Se o Brasil, pobrezinho, complicadinho, arruma 1 bilhão para fazer um estádio para a Copa pela vontade daquele que a gente bem sabe, porque não podemos usar essa mesma energia , digamos construtiva, para resolver coisas tão importantes como aeroportos e estradas?
Aliás, eu, se fosse a senhora, me afastaria da mesquinharia partidária, aproveitaria que ninguém dava nada por mim antes da posse e começaria um governo especial, para entrar na história. Não como uma primeira mulher presidente, como foi repetido infinitamente na campanha. Mas como um ser humano competente, patriota, incomodada com a miséria, com a violência, com a corrupção, com o atraso, com a burocracia. Que grande chance, não é mesmo? Se os enfrentamentos fossem duros (e tenho certeza que seriam), o povo estaria do seu lado. E povo aí falo de uma forma ampla: povo no sentido de povo brasileiro, sem distinção de classe social, região, religião ou simpatia partidária. Porque, veja bem, o povo brasileiro do qual eu venho, tem grande apreço a valores como a coragem e a honestidade. E um efeito do governo de seu antecessor é, ao mesmo tempo, sua maior oportunidade: o antigo presidente bagunçou o sistema partidário e, ao transferir o poder, lhe deu a oportunidade de refundar a política. Eu penso nela de forma plural, cujo foco poderia ser, por exemplo, de um lado pessoas honestas e do outro pessoas desonestas. Sim, porque eu acredito que existam pessoas honestas e bem intencionadas com as quais a gente poderia enfrentar essa lamaceira de Brasília. Tenho a senhora do lado das pessoas honestas, até prova em contrário.
Se tudo desse certo, lá no futuro eu ficaria muito feliz de ver meus netos andando pelas avenidas e viadutos “Dilma Roussef” que seriam inaugurados. Bem, pode me chamar de ingênuo, mas eu continuo acreditando que a senhora ainda tem uma grande oportunidade.
Voltemos ao motivo desta cartinha: o Palocci. Que carinha complicado, não é mesmo? Não bastasse a lambança que ele fez no passado (lembra? Casas suspeitas pra políticos, violação dos dados do coitado do caseiro que confirmou a história?), lá vem o cara de novo, com mais história mal contada. Dona Dilma, quer um conselho? Aja como uma estadista. Livre-se dele. Não fique refém da situação. Sua missão tem que ser muito maior do que fechar os olhos para um sujeito que, de uma hora para a outra, ficou milionário prestando consultorias para empresas as quais se recusa a dizer o nome, que tipo de serviço prestou, quanto recebeu. Isso não cheira bem. Veja só: o cara em quatro anos fica milionário e de repente, por total altruísmo, larga toda essa riqueza, fecha a empresa e vem para o governo, levar uma vida franciscana, pelo bem do país? Putz, tem que ter muito amor à Pátria. E não combina bem toda essa dedicação religiosa ao bem da Nação, enquanto se compra apartamento de 5 milhões nos Jardins. Na minha cabeça eu sempre penso assim: quem compra apartamento de 5 milhões precisa mantê-lo. Precisa pagar condomínio, quem limpe os vidros, as contas de gás, luz, telefone, tevê a cabo. Isso custa caro. Especialmente para quem não tem mais empresa de consultoria para lhe fornecer recursos.
Bem, meu ponto é o seguinte: como diz aquele ditado muuuuito antigo, à mulher de César é preciso ser honesta e parecer honesta. No caso, esse ministro simpaticão, boa gente, não me parece capaz de parecer nem ser nada disso. Se a senhora for fiadora dele, já estraga sua oportunidade bem no comecinho. E deixa crescer o apetite daqueles todos que ficaram muito felizes com essa crise aí. Gente do seu partido que discorda do Palocci. Gente que não é de seu partido mas que vende apoio nas horas difíceis. Gente que gosta de ver a casa pegando fogo para ganhar com isso. Não sei o quanto a senhora gosta desse ex-médico sanitarista que se tornou especialista em finanças de uma hora para outra, a ponto de virar ministro da Economia e dar consultoria para o mercado de capitais. Vai por mim: mande ele pra embaixada de Roma. E toque o barco. Pense na avenida Dilma Roussef.
quarta-feira, 27 de abril de 2011
La Sebastiana
Neruda queria uma casa em Valparaíso, de frente para o Pacífico. Uma sua amiga descobriu um projeto semi-acabado, começado por um construtor espanhol chamado Sebastián, em uma encosta alta, de onde se podia ver o porto e o mar. O construtor não tinha mais dinheiro e queria passar a obra para frente. Neruda e Matilde compartilharam seu sonho com outro casal, que ficou com a parte debaixo. Eles ficaram com a parte de cima, cinco andares todos voltados para o oceano. No dia da inauguração ele leu o poema que transcrevo a seguir. A folha em que ele o escreveu em tinta verde está no escritório, quinto andar, numa mesa que li com meus filhos e minha mulher. Com eles compartilho minhas casas e meus sonhos.
Para “A Sebastiana”
Eu construi a casa.
Primeiramente fi-la de ar.
Depois hasteei a bandeira
e deixei-a pendurada
no firmamento, na estrela,
na claridade e na escuridão.
Cimento, ferro, vidro,
eram a fábula,
valiam mais que o trigo e como o ouro,
era preciso procurar e vender,
e assim um camião chegou:
desceram sacos e mais sacos,
a torre fincou-se na terra dura - mas isto não basta, disse o construtor,
falta cimento, vidro, ferro, portas -
e nessa noite não dormi.
Mas crescia,
cresciam as janelas
e com pouca coisa,
projetando, trabalhando,
arremetendo-lhe com o joelho e o ombro
cresceria até ficar completada,
até poder olhar pela janela,
e parecia que com tanto saco
poderia ter teto e subir
e agarrar-se, por fim, à bandeira
que suspensa do céu agitava ainda as suas cores.
Dediquei-me às portas mais baratas,
às que morreram
e foram arrancadas das suas casas,
portas sem parede, rachadas,
amontoadas nas demolições,
portas já sem memória,
sem recordação de chave, e disse: “Vinde
a mim, portas perdidas:
dar-vos-ei casa e parede
e mão que bate,
oscilareis de novo abrindo a alma,
velareis o sono de Matilde
com as vossas asas que voaram tanto.”
Então a pintura
chegou também lambendo as paredes,
vestiu-as de azul-celeste e cor-de-rosa
para que se pusessem a bailar.
Assim a torre baila,
cantam as escadas e as portas,
sobe a casa até tocar o mastro,
mas o dinheiro falta: faltam pregos,
faltam aldrabas, fechaduras, mármore.
Contudo, a casa
vai subindo
e algo acontece, um latejo
circula nas suas artérias:
é talvez um serrote que navega
como um peixe na água dos sonhos
ou um martelo que pica
como um pérfido pica-pau
as tábuas do pinhal que pisaremos.
Algo acontece e a vida continua.
A casa cresce e fala,
aguenta-se nos pés,
tem roupa pendurada num andaime,
e como pelo mar a primavera
nadando como uma ninfa marinha
beija a areia de Valparaíso,
não se pense mais: esta é a casa:
tudo o que lhe falta será azul,
agora só precisa de florir.
E isso é trabalho da Primavera.
NERUDA, Pablo, Plenos Poderes, Tradução de Luís Pignatelli, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1962, p.73.
domingo, 24 de abril de 2011
Comentários sobre o Chile
Fiquei impressionado com a limpeza, com os prédios sem muros ou grades, nem porteiros, nem sistemas de segurança. Calçadas largas, pessoas civilizadas. Meu filho contou o número de mendigos que viu: 5, ao longo de uma semana. Dá certa inveja e certa amargura com o Brasil.
O Ricardo Freire, do blog Viaje na Viagem, matou a charada: quem vai a Santiago procurando Buenos Aires, não vai encontrar o estilo romântico e interessante dos portenhos, sua arquitetura parisiense, sua altivez arrogante. Encontrará um país que se moderniza rapidamente, com um povo mais contido e mais focado, que mira no Oriente para exportar e enriquecer. O seu Gérson, meu companheiro de viagem, decretou: a Argentina é um país que já foi rico e que não aprende a ser pobre. O Chile é um país pobre, que está aprendendo a ser rico. De fato, o enriquecimento é visível, apesar de certa ostentação. Por exemplo... um empresário maluquete alemão constrói um prédio de 73 andares em plena Las Condes. Nada demais, se não se tratasse de um país no qual se experimentam cotidianamente terremotos. Eu, por exemplo, nos dias em que estive lá, vivenciei dois (de 5,7 e de 5,3 pontos, respectivamente). O que seria grande notícia no Brasil,no meio da tarde tornou-se nota de rodapé nos sites chilenos, tão banais são tais eventos no Chile.
Mas é bom não esquecer: estamos falando de um país de 17 milhões de habitantes, com um território sui generis em todo o mundo. Da beira do mar à divisa com a Argentina, na latitude de Santiago, deve ter no máximo 200 km. Ao norte estão sentados em cima de uma das maiores minas de cobre do mundo, minério que exportam sem dó, em forma de matéria prima bruta, sem qualquer processamento. Além disso se tornaram tigres exportadores em outros produtos naturais de valor agregado alto, como frutas, vinhos, salmões e peixes e celulose. É possível perceber que o turismo também entrou na pauta central da atividade econômica no país. Ou seja, muitas fontes de receita, poucos para alimentar.
Os chilenos sabem disso e se vangloriam. No congresso que fui vi algumas palestras de alguns consultores pop stars da administração chilena. Um deles, baixinho, de óculos vermelho, afirmou de maneira impositiva: hoje temos 15% de pobres. Em 5 anos não teremos nenhum pobre. É uma boa perspectiva. E bastante factível. Apesar desse otimismo, não vi em momento algum ambição industrial nas estratégias do país. Nem uma visão de melhoria em serviços (em padrão bem abaixo do que estamos acostumados no Brasil). Nem uma pretensão tecnológica mais avançada, com exceção à pauta de exportação atual (frutas e vinhos produzidos com alta tecnologia e muita pesquisa). Dentro das ambições de potência do Brasil, isso soa meio estranho. Mas também pode ser muito bom: o Chile pode se tornar um país ecologicamente mais viável, com crescimento sustentado, sem grandes neuras ou ambições, mas bem de vida, como um fazendeiro próspero que não tem inveja do primo que vive na grande cidade.
No fim de tudo, vale a pena falar sobre a imagem dos brasileiros no Chile. Duas histórias. A primeira delas contada pelo motorista que nos levou a Valparaíso e Viña del Mar. Don Davi já teve um Astra e um Corolla e agora tem uma van Hyundai. Ele tem a seguinte opinão sobre os carros brasileiros importados no Chile: "sem querer falar mal da sua indústria, mas acho que o governo brasileiro obriga as fábricas internacionais a usar componentes eletrônicos do seu país. Por isso os carros quebram, especialmente em comandos eletrônicos, que acho que não são adaptados ao clima chileno. Carros coreanos e japoneses não quebram. Por isso cada vez menos chilenos compram carros do Brasil". Outro caso engraçado contado pelo motorista de táxi que trouxe Seu Gérson do aeroporto ao hotel: um dia ele perguntou a um hóspede brasileiro sobre o que achava do hotel onde estava hospedado. A resposta de nosso patrício: "é muito bom, o problema é que tem muito brasileiro". O motorista achou engraçado e depois repassou a história para outro passageiro, argentino, que assim retratou o que muito dos nossos amigos que falam castelhano acham dos que vivem aqui na terra na qual em se plantando tudo cresce e floresce: "é, nem eles se aguentam".
quarta-feira, 2 de março de 2011
A nova devassa
O assunto do verão no ano passado foi a visita de Paris Hilton ao nosso carnaval, ao mesmo tempo em que promovia a estréia da marca Devassa nas grandes redes de varejo, em marketing para as massas (Devassa é marca de charmosos botecos cariocas, uma microcervejaria com um antigo excelente slogan: "aqui se faz, aqui se bebe", aquisição mais ou menos recente do grupo Schincariol). Tem um post antigo, bem mais para baixo, que fala sobre minha relação de afeto com esta marca e o estrago que se fez com ela.
Este ano a mágica do buzz se repetiu com o anúncio da Sandy como nova "loura" (?) e "devassa" (???!!) para o carnaval de 2011. A antecipação da notícia pelo twitter do Luciano Huck gerou um burburinho tal que o assunto liderou os trending topics desta terça feira pré-carnavalesca. Instantaneamente a "Sandy devassa" alagou as redes sociais, mais do que enchente do aricanduva. Ponto para o pessoal de relações públicas da Schin, que fez a máquina da comunicação se pôr em movimento. O assunto deu motivo para muita discussão e piada (a melhor de todas é de minha aluna Priscila: "se a Sandy é devassa, eu sou o quê, então?"). E isso tem tudo a ver com o marketing, é claro. O assunto inclui-se no tema da super manipulação da variável promocional do composto de marketing, em detrimento de todas as demais. Ou seja, naquele lenga-lenga de que comunicação e marketing não são sinônimos, que não podem ser tomados um pelo outro. Ou então, melhor: de que não se deve jogar toda a responsabilidade na comunicação, se as demais (preço, distribuição, o próprio produto) não conseguem acompanhar a excitação que a comunicação pode despertar. Tipo assim: botar anúncios no Jornal Nacional para produtos que não tem disponibilidade na gôndola do supermercado. Ou então superpromover coisas que não têm muita qualidade. Ou como já li alguma vez (me foge o autor da pérola): nada é mais efetivo para matar um mau produto do que boa propaganda. Nos tempos atuais, substitua "propaganda" na frase por "comunicação integrada".
Neste instante, por exemplo, contemplo a foto da peça promocional em que Sandy com seus lindos e meigos olhos negros segura um copo de cerveja e se nos oferece, numa péssima relação de adequação celebridade / produto. Até o decote (??!!!!) é patético e não funciona, tirando a piada de que "todo mundo tem um lado devassa".Quem gosta de publicitês, pode ter gostado.
Meu aluno Edmilson me chama a atenção de que a campanha serve muito mais para a Sandy tentar se reposicionar do que qualquer outra coisa. É verdade. Mas também aí não funciona. Não sei se estou sendo demais exigente na análise, mas ninguém me convence que a Sandy vai virar o copo que está segurando. Na verdade tenho a sensação de que ela faz grande esforço para mantê-lo entre as mãos, que tem vistosas unhas vermelhas pintadas.
O que fico imaginando é se essa campanha funciona com os heavy users, com a galera que compra cerveja de engradado nos carrefours da vida. Penso nos homer simpson de pirituba olhando esta peça e considerando a possibilidade de comprar cerveja. Ou então na moçada da balada, que na hora de escolher cerveja, tem que chegar no balcão e pedir uma "devassa". Ano passado houve um efeito experimentação claro. Todo mundo adora novidade e o produto teve relativa boa saída. Mas, como em todo processo de compra repetida, parece evidente que o consumidor não voltou. E quem me disse isso foi a variável preço. O produto que era vendido a R$ 1,45 a latinha, alguns meses depois estava na pilha da liquidação a R$ 0,85, ali perto da Belco.
Para não me alongar muito na conversa, aproveito para constatar que jornalista que fala sobre negócios precisa estudar mais o que é marketing. Marili Ribeiro, que escreve no Estadão (muito bem, por sinal), hoje comete o seguinte: "O filme comercial que lança a campanha na televisão tem vida curta. Ficará no ar apenas 15 dias. Apesar do marketing, a cerveja conseguiu uma participação pequena no segmento – hoje é inferior a 1% do mercado total". Obrigado pela informação relevante, dona Marili. Mas o que a senhora quis dizer com "apesar do marketing"?. Talvez o que se tentou dizer foi: apesar do buzz marketing, o produto não se ajuda muito. E aí não adianta trazer nem a Lindsay Lohan de garota-propaganda.
sábado, 26 de fevereiro de 2011
O discurso do paraninfo
Meus caros colegas, pais e convidados. Queridos alunos e alunas.
Vocês não têm idéia de como fiquei orgulhoso e feliz por ter sido escolhido o paraninfo da turma de Rádio e Tevê, Publicidade e Propaganda e Editoração das Faculdades Integradas Rio Branco. É um privilégio participar desta noite especial e uma honra por representar todos os meus colegas que estiveram com vocês ao longo da jornada de quatro anos. Mas esta também é uma oportunidade pessoal. Vocês criaram a chance para que eu me despedisse da instituição que fez parte de minha vida – e vice-e-versa - nos últimos nove anos.
Como quase todos vocês sabem, desde dezembro não faço mais parte do quadro de professores das Faculdades. E confesso que, dois meses depois de sair, já estou com muita saudade da Rio Branco: uma escola séria, correta, empenhada que, tenho certeza, vocês guardarão para sempre com carinho e com orgulho. Para vocês terem uma idéia, até da secretária da sala dos professores, a Édila, eu sinto saudade!
Por sinal, hoje é sexta-feira e são nove da noite. E vocês não estão em sala de aula! Não é legal? Mas neste instante lá no campus estão os professores, coordenadores, a Édila e o pessoal de apoio, todo mundo está trabalhando... até o pessoal da cantina está lá, fazendo o melhor que pode. Podia ser um pouco mais depressa, é claro.
Lá também estão outros alunos. Alguns começando, outros concluindo. Todos eles cumprindo um ciclo que para vocês acaba oficialmente hoje.
Vocês conseguem lembrar de quando chegaram na faculdade? Aqueles que tiveram aula comigo no primeiro ano devem ter me ouvido dizer o seguinte: "aproveitem estes anos, que serão os melhores de toda a sua vida". Aproveitaram? Espero que sim. Porque esse tempo passou e vocês mudaram. Não, vocês não têm noção de como mudaram. Perguntem pra sua família, para seus amigos, para seus namorados. Eles dirão que vocês mudaram fisicamente, espiritualmente, intelectualmente. Alguns se apaixonaram, alguns viajaram, outros casaram, muitos arrumaram empregos, mudaram de penteado, perderam cabelo, engordaram, emagreceram, compraram um carro, aprenderam a dirigir, foram pra academia, mudaram o conceito sobre tantas e tantas coisas. Todos fizeram amigos que serão para sempre. E tenho certeza que vocês nem se tocaram que nos primeiros dias de aula, lá em 2007, esses caras aí, que estão do seu lado neste palco, eram completos estranhos para vocês.
Também aposto que vocês não prestaram atenção em de como o mundo mudou nesse tempo.
Nessa época, em 2007, ninguém imaginava que o Obama seria o primeiro presidente negro dos Estados Unidos. Muito menos que a Dilma seria a primeira mulher presidente do Brasil. Nem que inventariam esse tal de Ipad. Não prevíamos a extinção da exigência do diploma de jornalismo. Nem que falaríamos de coisas como o twitter ou o facebook. Era a época do orkut, lembram? Pouco se discutia sobre tv on demand, sobre a decadência da propaganda tradicional, sobre as novas formas das pessoas lerem, se informarem e se entreterem. Rede social era provavelmente só uma forma de descansar na varanda de casa.
Na hora em que escrevia esse texto fiquei imaginando o que vocês sentiram em dezembro, depois que leram as suas derradeiras notas no sistema. Pelo que conheço de vocês, meus alunos, deve ter ocorrido uma mistura de comemoração, alívio e vontade de ajuntar textos, cadernos, pendrives e fazer uma fogueira no quintal ou na área de serviço. Esta sensação de liberdade, de dever cumprido, de etapa vencida é a que predomina instantaneamente. "Acabou", muitos pensaram. E estou aqui para dizer que vocês estão enganados. Acabou nada, galera.
Uma formatura é muita coisa. Mas também é quase nada. Não é um documento oficial que fará vocês serem diferentes. Vocês é que devem saber que estão diferentes.
Deixem-me contar uma história: quando terminei meu doutorado brincava com meus amigos que, proclamada a aprovação, abrir-se-ia um portal de luz e um etê do outro lado, me chamaria, "venhaaa... venhaaaa". Não, não há portal de luz, nem nada muito especial depois da colação de grau. O que há é só vocês. E isso já é muita coisa. Vocês com suas ansiedades, seus problemas, a consciência dos limites, suas dúvidas, seu talento, sua disciplina, sua vontade de fazer as coisas acontecerem, sua perseverança.
O que vocês recebem agora é um diploma. Um papel com muitos significados. E talvez o maior deles seja que vocês têm capacidade de cumprir prazos, tarefas, objetivos e, no caminho, crescerem intelectualmente, como seres críticos e cidadãos que entendem sua relevância para a sociedade.
O nosso trabalho para chegar até aqui, o da Rio Branco, se encerra hoje. Mas a tarefa continua. E agora é só com vocês.
Talvez a partir de agora comece a fazer mais sentido toda a exigência, todo o rigor, as tarefas, os exercícios, os projetos, as provas, enfim, aquilo que os alunos costumam chamar de "inferno". E vocês verão como é engraçado, como a gente muda de perspectiva, dependendo da situação.
Hoje vocês estão mudando de perspectiva. E o que vocês querem da Rio Branco? Que ela continue uma escola empenhada em fazer o melhor, que exija mesmo, que não dê diplomas a qualquer um, porque afinal das contas, é assim que o seu próprio diploma vai valer mais.
Eu vou levar essa marca para toda minha vida. No meu currículo. Na minha memória. Na minha emoção de ter tido vocês como meus alunos. Vocês, a partir de agora, são responsáveis pela qualidade do que fizerem. Vamos combinar: é um acordo que nos unirá, todos nós aqui, para sempre. Eu faço o melhor que posso. Vocês fazem o melhor que podem. E isso será bom para todos vocês, quando disserem que eu fui seu professor. E para mim será muito importante, saber que um dia dei aulas para vocês. Ninguém pode deixar essa peteca cair.
Tem um aluno que vocês nem conhecem, do primeiro ano da Rio Branco, que nesse instante está sentado numa das cadeiras de uma certa sala espelhada, vendo aula, respondendo chamada, ou na fila da cantina, que confia muito em vocês.
Eu também confio demais em vocês.
Parabéns e muito obrigado pela oportunidade que me deram de vir aqui e desejar boa sorte, queridos alunos, queridas alunas.
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
A perda da máquina fotográfica.
Antes de continuar a ler, você sabe onde estão sua máquina e seu celular, neste exato instante?
Bem, o assunto aqui é nossa fixação pelo registro de imagens. A máquina fotográfica particular, portátil e razoavelmente descomplicada, é uma invenção típica da modernidade e da sociedade de consumo. Quando em 1888 o norte-americano George Eastman lançou um dispositivo capaz de fazer com que leigos capturassem e fixassem imagens, na verdade criava uma nova indústria e mudava um pouco de nosso modo de entender e nos relacionarmos com o mundo. Em cinco anos, 90 mil Kodaks baratas foram vendidas , na mesma época em que surgiam o cinema, o rádio e o fonógrafo.
Meu doutorado é sobre a imagem, por isso pesquisei um bocado sobre como nossas formas de estar no mundo escoram-se na capacidade de produzir formas de representação visual, tanto da realidade factual quanto da imaginada. Tem uma citação do Ramesh Raskar, pesquisador e professor do Media Lab do MIT, que acho resumir bem o estado das coisas: "não se trata da mera expansão quantitativa das imagens. O fato novo é o relacionamento das pessoas baseado cotidianamente no registro e na ânsia de consumir imagens". Por isso cada vez mais ipads, celulares, facebooks e a internet facilitam esse trânsito de fotos capturadas de maneiras simples e descomplicadas, inacessíveis à imaginação de nossos antepassados.
Outro dia na festa de Bodas de Prata de amigos fiquei contemplando o paradoxo deste mundo do registro: enquanto o casal renovava seu compromisso de amor, em uma cerimônia religiosa tocante e sincera, fotógrafos e videografistas tomavam a frente, dando as costas para as pessoas que estavam ali para presenciar. Ou seja, no momento mais tocante da cerimônia, todos vimos apenas os ternos alugados dos profissionais empenhados na captura das preciosas imagem. E, se os que estavam ali eram os que respeitam e compartilham a felicidade dos esposos, para quem então eram produzidas estas fotos e vídeos? Para eles mesmos? Para os que não estavam ali? Para os que estavam ali reverem?
Escrevo sobre este tema depois de superar o luto pela perda (ou roubo, sei lá) da minha máquina fotográfica Nikon Coolpix no penúltimo dia de minhas férias na Bahia. Quando nossa família se deu conta da perda, mais à noite no quarto do hotel, grande comoção se abateu sobre todos nós. Na memória da máquina estavam fotos preciosas, momentos que escolhemos entre tantos para guardar e rever. Fotos de nosso trabalho (meu e dos meus filhos) pintando paredes. Das festas do final de ano. De minha viagem à Alemanha. Da própria viagem, como as fotos que tirei da moqueca na Barraca da Maria Nilza na praia de Guaiú . Dos meninos na piscina, dos meus barquinhos revistos no rio João de Tiba. Que tristeza! Reviramos todos os lugares do quarto, conversamos com gerentes, funcionários, hóspedes, ofereci recompensas, voltei à vila onde estivera na parte da manhã. Nada. Nem traço. A sensação foi horrível, além da perda material e afetiva, também da violação de nossa vida nas mãos alheias.
No filme Blade Runner (e também no livro do Philip K. Dick que baseou o filme do Ridley Scott, "Do androids dream of electric sheep?") há esta discussão sobre implantes de afeto nas mentes, baseados em associações a imagens. Os replicantes andróides do filme de ficção científica, criados por uma corporação, não sabem direito se são humanos ou máquinas da biotecnologia e têm especial afeto por fotos que demonstrar suas existências como seres. Com as fotos eles têm história, têm memória, têm referências. As imagens estão ali para comprovar. As minhas estão em algum lugar da Bahia. Cuidem bem das suas.
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
Todos os comerciais do Super Bowl
Outro dia dona Esposa passou aqui na frente do computador e me disse: "tanta coisa pra fazer, e você aí, vendo filminho?". Difícil explicar que parte de minha profissão é ficar atualizado sobre uns filminhos que muitas vezes consomem milhões de dólares para sua produção e veiculação. E, no caso, dos comerciais do Super Bowl, trata-se do suprassumo da produção publicitária mundial, aguardada quase tão intensamente quanto a audiência espera pra ver brucutus se pegando naquele campo esquisito com um garfo espetado de cada lado, vá entender!
Bem, pra quem gosta de produção publicitária, o endereço pra ver todos os comerciais exibidos no Super Bowl 2011 é o seguinte: http://adage.com/superbowl/article?article_id=148677
Não quero atrapalhar a sua própria experiência, mas vou lá dizendo do que gostei mais: os comerciais do Doritos pela idéia (especialmente o do dedo), o Cowboy da Budweiser, a animação do comercial do Beetle, a qualidade da cinematografia do comercial da Chrysler (de longe o apelo emocional mais interessante de todos), o comercial da Pepsi do primeiro encontro e a peça da própria NFL promovendo a importância cultural do evento. Espere até o final para ver a piada. Para entender o caminho da comunicação publicitária recente: quase todas as peças propõem o humor como gancho e serve cada vez mais para a função entretenimento da propaganda, como bem comentado pelo Bob Garfield na coluna pós-evento. Alguns comerciais péssimos (para o tanto de investimento feito): o da e-trade, dos bebês, provavelmente idéia do sobrinho estagiário do dono da empresa ("vamos usar um bebê? todo mundo presta atenção em bebês!") e o da Groupon.
Se você for lá ver, aproveite e comente ao que achou aqui.
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